Risco cambial: o problema começa quando a empresa assume o compromisso, não quando o dólar sobe.
Uma empresa encomenda mercadorias no exterior para pagar em dólares daqui a 90 dias. No dia do pedido, registra o custo usando a cotação daquele momento. Depois, acompanha o câmbio apenas por curiosidade. Quando o dólar sobe, descobre que a margem prevista diminuiu.
O problema não começou no dia da alta. Começou quando a empresa assumiu uma obrigação em moeda estrangeira sem definir como administraria a variação até o pagamento.
Existe exposição cambial quando o valor em reais de um ativo, passivo, receita ou despesa depende da cotação de outra moeda. Isso pode ocorrer em importações, exportações, dívidas, equipamentos, royalties, serviços digitais e contratos indexados.
O primeiro passo não é escolher um derivativo. É mapear a exposição: moeda, valor, data prevista, grau de certeza e efeito sobre margem e caixa. Uma compra apenas planejada não tem o mesmo risco de um contrato já firmado. Um recebimento em dólares pode compensar parcialmente um pagamento na mesma moeda e no mesmo período, formando uma proteção natural. Mas valores e datas precisam ser compatíveis.
Depois do mapa, a empresa define sua política. O objetivo do hedge é reduzir o efeito de movimentos adversos e dar previsibilidade a preços, margens e fluxos de caixa. Não é acertar para onde o câmbio vai.
Entre os instrumentos possíveis estão contratos a termo, futuros, opções e swaps. Eles não funcionam da mesma forma. Um termo pode fixar uma taxa para liquidação futura. Contratos futuros têm padronização e ajustes conforme as regras do mercado. Opções envolvem direitos, condições e prêmio. Swaps trocam referências financeiras conforme o contrato.
Esses instrumentos também trazem riscos. Pode haver custo, exigência de garantias, ajuste de caixa, risco de contraparte, descasamento de prazo ou valor e perda de oportunidade quando a cotação se move de forma favorável. Um hedge mal dimensionado pode criar uma nova exposição em vez de reduzir a existente.
Por isso, a sequência gerencial deve ser disciplinada:
identificar os compromissos e recebimentos por moeda e vencimento;
calcular a exposição líquida e os efeitos sobre margem e caixa;
definir limites, percentuais de cobertura e responsáveis;
comparar instrumentos, custos, garantias e cenários;
contratar somente por meio de instituição habilitada, com compreensão dos riscos;
acompanhar a operação até a liquidação e revisar a política.
Suponha que uma importadora tenha de pagar US$ 100 mil em 90 dias. Se seu preço de venda foi definido em reais, uma alta do dólar reduz a margem. A proteção pode tornar o custo em reais mais previsível. Mas o volume protegido precisa acompanhar a obrigação real. Se a compra for cancelada e o derivativo permanecer, a empresa poderá ficar exposta ao mercado sem a operação comercial que justificava a proteção.




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