Custo direto: Avaliação de estoques
Custo direto é a parte mais fácil de identificar dentro da estrutura de custos de uma empresa: é o gasto que pode ser atribuído a um produto sem nenhum rateio, porque a relação entre o gasto e o produto é direta. Matéria-prima consumida, embalagem usada, mão de obra do operador que trabalha só naquela linha de produção: tudo isso é custo direto. O custo indireto, ao contrário, precisa de um critério de rateio para ser dividido entre os produtos, como a energia elétrica da fábrica inteira ou o salário do supervisor que circula entre várias linhas.
O problema aparece quando a empresa compra o mesmo insumo várias vezes, em datas diferentes, por preços diferentes. Se uma indústria de embalagens compra resina plástica em junho a R$ 8,00 o quilo e, duas semanas depois, o mesmo insumo já custa R$ 9,20 o quilo, qual desses dois valores deve sair do estoque quando a empresa vende ou consome a resina na produção? Essa pergunta é resolvida pelos critérios de avaliação de estoques, e a resposta muda o valor do custo direto que aparece no resultado do mês.
O método mais usado no Brasil, e aceito pela legislação fiscal com base na NBC TG 16, é o PEPS, sigla para Primeiro que Entra, Primeiro que Sai. Ele parte do princípio de que o lote mais antigo em estoque é o primeiro a ser consumido ou vendido. Voltando ao exemplo: a indústria comprou 100 kg a R$ 8,00 e depois 150 kg a R$ 9,20, formando um estoque de 250 kg. Se ela consome 180 kg na produção, o PEPS baixa primeiro os 100 kg a R$ 8,00, que somam R$ 800, e depois 80 kg do segundo lote a R$ 9,20, que somam R$ 736. O custo direto lançado é R$ 1.536, e sobram 70 kg no estoque, todos do lote mais caro, valendo R$ 644.
O custo médio ponderado segue outra lógica: em vez de separar por lote, ele mistura tudo. Somando as duas compras, a empresa gastou R$ 2.180 por 250 kg, o que dá um custo médio de R$ 8,72 o quilo. Ao consumir os mesmos 180 kg, o custo direto lançado seria R$ 1.569,60, e o estoque restante, também a R$ 8,72, valeria R$ 610,40. Repare que, num cenário de preço subindo, o PEPS lança um custo direto menor e deixa o estoque valorizado a um preço mais alto, enquanto o custo médio distribui o aumento de preço de forma mais uniforme entre o que foi consumido e o que ficou parado.
Existe ainda o UEPS, Último que Entra, Primeiro que Sai, que faz o caminho inverso do PEPS e aproxima o custo direto do preço mais recente. Ele não é permitido para fins fiscais no Brasil, com base na NBC TG 16, e também não é aceito pelas normas internacionais de contabilidade. Fica restrito, quando usado, a análises gerenciais internas, sem valor para a apuração de resultado ou de imposto.
A escolha entre PEPS e custo médio ponderado não é só uma formalidade contábil. Ela muda o valor do custo direto que reduz o lucro tributável no mês e o valor que fica registrado como ativo no estoque. Empresas com insumo sujeito a variação de preço frequente, como plástico, aço ou commodities agrícolas, sentem essa diferença de forma mais clara do que empresas com fornecedor de preço estável. Vale conferir com o contador qual dos dois critérios está sendo aplicado hoje, porque a mesma operação de compra e venda pode gerar dois resultados diferentes na demonstração, dependendo apenas de qual regra está em uso.
Fontes: Conselho Federal de Contabilidade, NBC TG 16 (R2) – Estoques (https://www1.cfc.org.br/sisweb/SRE/docs/NBCTG16(R2).pdf), equivalente brasileira ao CPC 16, com síntese em Grupo BLB Brasil, CPC 16 – Estoques: custos e critérios de valorização (https://blbescoladenegocios.com.br/blog/cpc-16-custos-valor-estoque/); classificação de custo direto e indireto também conforme BRUNI, Adriano Leal; FAMÁ, Rubens. Gestão de Custos e Formação de Preços. 6ª ed. São Paulo: Atlas, 2012, citado em artigo acadêmico AEDB/SEGET (https://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos18/13126157.pdf). O exemplo numérico de compra e consumo de resina plástica é hipotético e ilustrativo, sem relação com dado de mercado real.




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